O “S” do ESG mora no território. Não no relatório.

O componente Social do ESG é o mais mal interpretado dos três. Entenda por que projetos sociais desconectados do território não geram impacto real — e o que muda quando a escuta ativa é genuína.

Existe uma versão do ESG que vive em documentos. Bem escrita, bem formatada, alinhada aos frameworks internacionais, aprovada pelo jurídico e pelo conselho. Bonita.

E existe o ESG que acontece — ou não acontece — no território onde a empresa opera, extrai, vende ou quer ser bem-vinda.

A distância entre essas duas versões é onde mora o risco. E é onde eu trabalho.

O que o “S” realmente significa

O componente Social do ESG é, de longe, o mais mal interpretado dos três. O “E” tem métricas relativamente consolidadas — emissões, consumo de água, destinação de resíduos. O “G” tem frameworks de governança corporativa bem estabelecidos. O “S” é onde a maioria das empresas improvisa.

Programas sociais desconectados da realidade local. Ações de capacitação que não consideram a cadeia produtiva do território. Patrocínios culturais que chegam de fora com uma agenda pronta e saem sem deixar nada além de um banner com o logo da empresa.

Isso não é Social. É presença. E presença sem impacto não conta como ESG — conta como marketing.

O território tem uma cultura. E essa cultura precede a empresa.

Quando uma empresa decide investir socialmente em um território, ela está entrando em um ecossistema que existe antes dela e existirá depois dela. Esse ecossistema tem líderes, tem conflitos, tem saberes, tem formas de organização que não aparecem em nenhum relatório de análise de mercado.

Giro um Centro Cultural em Itanhaém, no litoral de São Paulo. Trabalho com artesãos que mantêm técnicas transmitidas por três gerações. Com coletivos que organizam a economia criativa local. Com associações que são, na prática, a única rede de suporte de comunidades inteiras.

Quando uma empresa chega nesse território com um projeto social desenhado em São Paulo, por uma agência que nunca esteve lá, o resultado quase sempre é o mesmo: o projeto não se sustenta, as lideranças locais não se sentem representadas e a empresa sai com uma foto de inauguração e nenhum impacto real.

Escuta ativa não é consultoria participativa de manual

Falo muito em escuta ativa, e preciso ser precisa sobre o que isso significa na prática — porque virou jargão e perdeu o sentido.

Escuta ativa em um projeto social não é fazer uma reunião com a comunidade antes de executar o que já estava planejado. É deixar que o que a comunidade diz altere o que será feito. É ter humildade técnica suficiente para chegar sem projeto pronto e construir com quem vive ali.

Isso exige tempo, presença e relação de confiança. Não pode ser terceirizado para quem não conhece o território. Não pode ser feito em uma visita de dois dias.

É exatamente por isso que a presença real no território não é detalhe na minha consultoria. É o produto.

O que muda quando o “S” é real

Quando o componente Social de um projeto ESG é construído com e para o território — não apenas para ele — algumas coisas acontecem que não acontecem de outra forma.

As lideranças locais se tornam parceiras da empresa, não apenas beneficiárias. O projeto ganha continuidade porque faz sentido para quem vai sustentá-lo depois que a empresa sair. Os indicadores de impacto são mais fáceis de medir porque o impacto é real e visível para quem está lá. E a narrativa que a empresa vai contar no relatório ESG tem substância — porque vem de pessoas reais, em um lugar real, com transformações verificáveis.

A pergunta que separa o ESG real do ESG de documento

Quando avalio o componente Social de um projeto, faço uma pergunta simples para começar: quem no território foi consultado antes de esse projeto ser desenhado — e o que eles disseram mudou alguma coisa no projeto?

Se a resposta for “consultamos e confirmamos que nossa proposta fazia sentido”, o projeto foi desenhado de fora para dentro. Se a resposta for “consultamos e mudamos X, Y e Z por conta do que ouvimos”, estamos começando a falar a mesma língua.

O “S” do ESG mora no território. Para chegar lá, é preciso ir até lá — de verdade.

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